PUBLICAÇÃO VIRTUAL

iN SAiO 10 Anos

A iN SAiO Cia. de Arte comemorou, entre 2019 e 2020, seus 10 anos de atividades ininterruptas. Assim, o projeto iN SAiO 10 Anos CONVIDA, realizado com aporte da 26ª edição do Fomento à Dança, trouxe a comemoração desta trajetória com intensa pulverização de ações artísticas na cidade, por meio de ações que buscaram refletir sobre todas as criações feitas até aqui e seus sentidos atualizados neste momento: Brasil, São Paulo, 2019/2020. Onde, com quem e como estamos? E, principalmente: diante de cada criação construída nesse tempo, o que nos interessava agora? Estas questões levaram a iN SAiO a desenvolver uma radiografia de seus 7 espetáculos criados desde 2010: a partir de cada um deles, foi retirado um eixo de interesse, um ponto essencial que ainda dissesse respeito à prática da companhia, e que por sua vez pudesse dar origem a uma ação proposta.

APRESENTAÇÃO

DOS RECORTES DE UMA QUARENTENA... NADA DANÇANTE!

...o corpo inerte, interrompido, recortado, parado no tempo, vazio do outro e cheio de si.

Parece que tudo estacionou num tempo que não é tempo, num lugar que não tem chão, num mundo que parece um faz de conta, de conta que não é nada, mas é tudo, e tudo, é real.

E Vazio! De corpo!

É um aperto que se faz presente na mente, na pele, nos ossos, nas vísceras, nas entranhas...

Claudia Palma

ATÃO

Hernandes de Oliveira

 Mulheridades

 Desterritorialização na Dança

Cristina Ávila

Impulso irresistível

Fiódor Dostoiévski, atuando como “biógrafo” da tragédia familiar dos Karamázov no célebre romance Os Irmãos Karamázov (1880), nos fala das circunstâncias que envolveram o assassinato do patriarca Fiódor Pavlovitch, tendo como acusado (injusto...?) do parricídio, o primogênito Dimitri Karamázov (ou simplesmente Mítia), apresentando este como alguém tomado por uma espécie de “impulso irresistível” ao cometer (ou não... como se descobre depois...) o ato que findou a vida daquele.

 

Impulso irresistível: é disso que trata esse texto. Ou de como a arte é rica em exemplos de impulsos irresistíveis. Especialmente as artes performáticas. Não que não haja impulso dessa natureza em outras formas de expressão artística, penso eu... mas o contágio humano é latente no tempo real. E esse contágio gera impulso. Impulsos quiçá irresistíveis.

 

 

Guilherme Marques

 

O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é um tigre que me destroça, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo.
(Jorge Luis Borges)


Os fios ligam apenas e na medida em que os abismos separam: constroem pontes e ao mesmo tempo buracos.
(Alexandre Nodari)

Uma linha atravessa o tempo e o espaço em corajoso desenho. Seu movimento rápido escapa de algum desejo apressado que pretende aprisioná-lo em categorias: não é planejado nem improvisado; não é autônomo, pois está preso ao peso que a arremessa adiante, mas goza o ato criativo e, nesse sentido, é livre.

Em sua ponta, amarrada a ele por um nó bem torcido, está uma agulha.

A agulha é uma pequena lança. 

Ainda criança, a agulha é um corpo que desaba de lugar algum para nenhum lugar. Território de si, perfura muros, fixa-se ao chão como pau de bandeira.

Adolescente, a agulha é um cálamo eutônio que perfura a membrana e ativa sua memória mais íntima de permeabilidade como uma imposição doída, visita inconveniente e estranhamente desejada.

Jovem e provocadora, a agulha aceita o convite de ser um falo e uma vulva. Testa o próprio gosto. Como Vênus em peles, adentra a escuridão dos avessos e adormece nos braços do mistério, nos ponto onde os sinais não servem: caminhante sem caminho.

Amenhecida madura, a agulha agora se dobra. É perna, braço, ângulo, articulação, lembrança e encontro. Cotovelo de ponte, arqueia-se vertebral e conecta antigos amigos que a montam e cavalgam escalando degraus, prometendo e (des)cumprindo comprimentos.

 

Rodrigo Vilalba

ABRAÇO

Começo pelo agora para terminar no início, já que os inícios tem essa incerteza, essa história desconhecida, esse caminho ainda não vivido. Quando chegar ao fim desse texto, estarei no princípio de uma parte da caminhada até aqui, imaginando não saber que, no aqui, estaria em meio a uma pandemia e, para além dela, a um dos momentos mais mórbidos e perversos que o país já viveu.

Poderia pensar que o agora é movimento em contenção. Ou em latência, ou em suspensão.

Mas, ao contrário, o agora é turbulência acelerada

                                  agora são (mais) números disparados

                                  agora são (mais) vidas lançadas a um anonimato impossível

                                  agora é a continuação dos séculos que alimentaram

                          os sistemas todos que construíram

                          seus-próprios-desabamentos.

                          Nada de novo.

Natália Franciscone

Imagens que se sobrepõem. Sobrevivência.

O caos aqui, de dentro e de fora. Agora.

O que dói. Só.

Sobra. Só.

Destrói, aqui só.

O que acaba e o que perfura.

Alarmante.

Só. Permanece no grito oco de dentro.

Tira, desaba e atinge.

Pausa

Silencio

Esmaga a alma. Exposto está.

Turbulento interfere em ti.

Aqui dói só.

 

Camila Loreta

Chego no Centro de Referência da Dança para performar “MASSA”, a convite da iN SAiO Cia de Arte, parceira de muitos anos. Quando chego, muito bem assessorado, percebo que por problemas de ruído na reforma do Vale do Anhangabaú, o local reservado para mim não ia dar certo, pois utilizo sutilezas do som que iriam se perder. Rapidamente, a equipe se reorganiza e transformamos a sala do camarim na minha sala de performance. E a performance ocorre muito bem. Esta adaptação, tão frequente no mundo das artes performáticas, é comum também ao processo de padaria artesanal.

 

 

dançar,

uma experiência

degustativa

MANDIOCA

Estávamos as duas frente a frente.

 

Seus cabelos enrolavam da raiz a ponta, com tonalidades diversas, ia do castanho para o castanho claro sem muita ordem, talvez só com o testemunho de onde o sol tocou. Ela tinha esse cheiro, já havia sentido antes, um cheiro de gente que se movimentou bastante, que se alimenta, caminha, vive, cuidando para que seu cheiro seja de gente.

 

Eu gosto desse cheiro, sem disfarçar, forte, seu suor e hormônios misturados numa amalgama maluca de sentidos, que chegavam até o meu nariz, me convidando a mergulhar naquele mundo que, para mim, até então, me era completamente desconhecido.

 

Transcrição do áudio “Sobre a Mostra Mergulho Abissal hoje ou um dia coreografia por fios de confiança

por Leticia Sekito|Companhia Flutuante

 

São Paulo, dia 1º de julho, 23h57.

 

[silêncio]

 

Aqui é a resposta a mais um convite que a Claudia Palma, junto à IN Saio Cia de Arte, me faz desde alguns anos para cá.  É sempre uma surpresa como esses convites para estar junto, "junta" à 

Companhia, me pega de surpresa, numa surpresa positiva.  Uma surpresa que me motiva. E eu agradeço.

Ano passado, em Outubro de 2019, a IN Saio me fez um convite para participar da [Mostra] Mergulho Abissal e agora, essa memória dessa experiência que eu tive lá, junto a outros artistas que também colaboraram ao longo de um tempo com a companhia, me faz refletir, revisitar e faz-me tornar presente aquela memória-experiência.

 

Estamos agora em pleno momento da pandemia, do isolamento social possível para alguns ,e de pensar naquele momento me veio à cabeça, por essa memória dessa experiência, a palavra confiança.  Confiança.

00:00 / 10:05

Leticia Sekito

Ramiro Murilo

Q?

Robson Lourenço

...PARA UM CORPO DE

áGUAS

cONTIDAS

 

O nosso corpo é feito de quê?

De carne, sangue, águas contidas?

Não, [...], o corpo era feito de tempo.

Acabado o tempo, termina

Também o corpo.

 Depois de tudo, sobra o quê?

Os ossos.

O não tempo, nossa mineral essência.

Se de alguma coisa temos que tratar bem

É do esqueleto,

Nossa tímida e oculta eternidade.

(Couto, 2012)

 

 

 

1. O nosso corpo é feito de quê? De carne, sangue, águas contidas?

 

    O trecho literário apresentado acima foi retirado da obra “O último voo do flamingo”, do autor Mia Couto (2012).. Esse excerto extraído de um conto de um escritor moçambicano apresenta pistas do caminho a ser percorrido neste texto. Para isto vou propor aos leitores um exercício do olhar.

Claudia Palma

SOBRE TRAJETÓRIA E A PRÁTICA DA EUTONIA COMO O AUTOCUIDADO

NA DANÇA

Os caracóis constroem uma casinha que carregam consigo. Assim, o caracol está sempre em casa, qualquer que seja

a terra onde viaje.

Gaston Bachelard - A poética do espaço

 

         

 

         A Eutonia me tocou há 38 anos, quando comecei a dançar pelas mãos e direção do Dr. Edson Claro, no Grupo de Dança Casa Forte. Edson era um educador do corpo pela dança e tinha como um dos princípios o autocuidado - isso em meados de 1982.

         Sigo a carreira artística, praticamente esquecendo de seus ensinamentos básicos e necessários para a vida de um bailarino profissional, ou um atleta da dança, como algumas vezes o ouvi falar. Então, Edson convida a Eutonista Patrícia Stokoe para dar uma aula, uma argentina que nunca mais esqueci. Curioso é que não me lembro de sua aula, mas algo mágico e tocante aconteceu naquele dia.